Turbine seus conhecimentos!

A história da Bravi Software de Floripa para o mundo

Tecnologia e Educação desde sempre

Gustavo é gaúcho de Rio Grande, uma cidade bem ao sul do estado do Rio Grande do Sul, perto do Chuí. A família era super envolvida em Educação. O Pai, professor universitário e por oito anos reitor da FURG – Universidade Federal de Rio Grande. A Mãe, professora da rede estadual de ensino público. Cresceu ouvindo o pai falar dos desafios do ambiente universitário e a Mãe sofrendo com condições de trabalho ruins e inúmeras greves. Foi em Rio Grande também que se interessou por tecnologia. Teve o primeiro computador aos nove anos, fez escola técnica federal. Na época ser nerd era mais difícil, não era tão “cool” como é hoje. Não queria trabalhar com educação. Complexo demais, difícil de resolver o problema.

Ao fazer intercâmbio pro Canadá no ensino médio percebeu algo diferente do que enxergava antes. Que nós brasileiros não estamos tão atrás, não somos piores do que os estudantes e profissionais dos países de primeiro mundo. Por mais que hoje pareça uma percepção simples, na época com menos globalização era difícil de ver. Enxergou que as vantagens desses países em acesso á tecnologia, informação e produtos se traduzia em um melhor desenvolvimento da sociedade. Percebeu que era possível fazer aqui também. E por acreditar nisso hoje preside uma empresa de tecnologia cujos produtos – desenvolvidos em Florianópolis  – atendem estudantes em todo o mundo.

Ao voltar decidiu prestar o vestibular de Ciências de Computação na UFSC. Queria sair de Rio Grande. Fez o vestibular e começou o curso de ensino superior. Trabalhou no laboratório de software educacional desenvolvendo uma linguagem de programação para ensinar calouros da faculdade a programar. Gustavo e equipe lançaram o sistema chamado Telis. Nesta época descobriu que estavam abertas as inscrições para um programa da IBM para projetos inovadores na área de Educação. Ao olhar aquela chamada , sugeriu aos colegas que inscrevessem o seu projeto, mas eles ficaram bem incrédulos. Entra em cena o insight dos meses no Canadá: É possível. Ganhou um innovation grant da IBM para inserir a aplicação Telis no Eclipse, uma plataforma nova da IBM que posteriormente dominaria o segmento de ferramentas para construção de software. Foi aos EUA apresentar os resultados e encerrou o projeto 12 meses depois.

Trabalhando depois da faculdade

Ao sair da faculdade  começou a trabalhar em desenvolvimento e aprendeu sobre lean development, gestão de equipes de desenvolvimento e novas tecnologias de programação. Ainda trabalhava na rotina de uma empresa de tecnologia com mentalidade de empregado quando surgiu a oportunidade de, junto com os donos da empresa onde trabalhava, desenvolver uma plataforma de marketing digital e começar seu primeiro empreendimento. Marketing automation na época estava principalmente relacionado a email marketing puro e simples. Estamos em 2004, uma empresa de marketing automation em Florianópolis era uma ideia perfeita para um mercado que ainda não existia. Investiu dinheiro, desenvolveu primeiras versões da plataforma, aprendeu bastante com os erros e acertos. E apesar do relativo sucesso, três anos depois decidiu ir morar fora do Brasil para novamente ter uma experiência internacional. Queria desbravar e conhecer mais coisas. A ideia inicial era fazer um MBA mas acabou sendo contratado por uma empresa Britânica chamada Tribal.

Tribal

Grupo multinacional forte no desenvolvimento de ferramentas e soluções para educação básica, continuada e superior. Rico ecossistema de produtos para gestão de modelos híbridos, LMS e ERP. Começou na área de DevOps, foi líder de equipe e arquiteto de software em projetos de tecnologia e ambientes de aprendizagem virtual. Em 2010 seu chefe direto se tornou o líder do programa de inovação da empresa e Gustavo foi convidado para integrar a primeira equipe da nova área. Trabalhar mobile learning, pesquisa e desenvolvimento criando projetos de ponta, protótipos para inovação. Um dos projetos mais significativos da época foi contratado pelo departamento de defesa dos EUA aplicar em situações de desastre natural. As equipes deslocadas para os ambientes de enchentes, terremotos, furacões aprendiam as principais características do local relevantes para o trabalho que iriam desempenhar. Um projeto do qual era líder técnico e aplicava conceitos de educação e mobile learning para ajuda humanitária.

O embrião do conceito de retenção

Entrou de sócio numa StartUp inglesa, chamada GloboSense. A ideia da empresa era aplicar redes de sensores sem fio com tecnologia de big data e analytics por trás. Primeira problemática atacada era a gestão de energia. Colocar instrumental em uma casa com sensores sem fio que mandam as informações de consumo dos aparelhos para a nuvem. E na nuvem fazia uma série de análises trazendo em tempo real o consumo em vários devices e dicas de como economizar energia. Era o começo do conceito de casa inteligente. O primeiro cliente foi o governo inglês, com quem fecharam um contrato de 200 mil libras para colocar protótipo dentro dos prédios do governo e economizar energia.

Primeiro, dar ciência que as pessoas gastam energia e isso tem um custo. Depois sistemas de alerta para dizer do momento certo, que o indivíduo pode mudar aquele comportamento de desperdício e economizar energia. O mesmo conceito seria mais tarde utilizado como base para o sistema de combate a evasão de alunos em universidades. Dar ciência para a instituição que o aluno está em risco e mudar o comportamento na hora certa com ferramentas de mobilidade. A disrupção seria envolver mais o aluno na história, mas as universidades são receosas e bastante conservadoras em comunicar ao aluno, deixar claro que ele está efetivamente em risco.

Retorno ao Brasil

Foi bem na época que a Tribal estava expandindo. A América Latina, onde o Brasil representa boa parte do mercado era uma opção. Em paralelo a isso, um dos grandes projetos educacionais – no qual ele havia participado em sua passagem pela Tribal – era com o ministério de educação da Austrália. Uma das maiores implementações de software educacional do mundo, ERP escolar para mais de 2000 escolas e 200 faculdades. Com a necessidade de entregar esse projeto e experiência em ter sido empreendedor no Brasil sugeriu abrir a filial da Tribal no Brasil. Tanto para acompanhar e ajudar a entregar a o desenvolvimento desse projeto na Austrália quanto para ser a filial da empresa aqui. Pelo risco Brasil, burocracia e carga tributária a empresa decidiu não vir, mas abriu uma oportunidade diferente. Caso Gustavo quisesse empreender no Brasil a empresa lhe garantiria um contrato como fornecedor.

Foi quando surgiu o impasse, a dúvida: voltar ao seu país ou continuar no exterior?  A oportunidade de voltar e começar um negócio era tentadora, ainda por cima começando já com um grande cliente e contrato em tecnologia e educação. Sempre que voltava pra cá era comum ouvir comentários e sentir um certo incômodo por ter recebido educação pública e de qualidade do Brasil e aplicar esse conhecimento para desenvolver inovações em outros países. Depois de pensar bastante decidiu abandonar o conforto e a vida boa que incluía ir de bicicleta para o trabalho e não ter preocupação com segurança, para fundar a Bravi em Florianópolis.

O começo da Bravi Software e o B2C

Voltou em 2012. Escolheu Florianópolis porque tinha feito a faculdade ali, e acreditava no potencial da cidade. No astral da ilha, no ambiente de inovação, na capacidade de atrair talentos para projetos inovadores. Agregando assim cada vez mais gente de fora, o que ajudou a contribuir com o ecossistema local. A cidade havia se consolidado como polo de tecnologia e startups inclusive em âmbito nacional, e dali pra frente iria crescer cada vez mais.

Hoje a Bravi trabalha basicamente com dois produtos:

O Bravi Quiz  é um mobile learning game, utilizando conceitos de micro-aprendizado e pílulas de conhecimento para interação com os usuários. Gustavo já trazia uma experiência forte nessa área de Cambridge, inclusive implantando projetos para grandes empresas como o Mc Donalds. Em 2013 surgiu a oportunidade de criar algo similar para a Qualcomm. Empresa de tecnologia móvel de ponta com mais de 30.000 funcionários, precisava engajá-los em conteúdos importantes para a sua função na empresa. O conteúdo precisava ser interessante, assimilado de forma simples e rápida. A solução de microlearning da Bravi era perfeita. Desde esse momento Gustavo já sentia a possibilidade daquela tecnologia ser aplicada em outras frentes. Se aproximou da Universidade de Cambridge com departamento responsável pela criação dos testes de inglês IELTS chamado Cambridge English, reconhecida internacionalmente por ensino do idioma inglês e propôs um modelo de negócio. A universidade disponibilizaria conteúdo e base de usuários enquanto a Bravi entraria com a tecnologia. Esse conteúdo então seria disponibilizado por meio de um game, com possibilidade de desafios em tempo real, interação com outros usuários e pontuações. Cambridge English já vinha buscando inovar com tecnologias educacionais móveis e ficou muito interessada nas possibilidades. Utilizando a sólida tecnologia Bravi desenvolvida em Floripa e a marca de Cambridge, o app rapidamente atingiu 250 mil pessoas em 197 países. O sucesso impulsionou uma segunda etapa de desenvolvimento, em execução agora, para levar aos outros países do mundo que ainda não têm acesso. Essa expansão internacional por meio da parceria foi possível por três pilares:

1. Capacidade técnica e comprometimento com o trabalho, provados a partir do histórico de projetos já entregues. Demonstrar solidez, conhecimento, viabilidade. No primeiro momento Cambridge decidiu fazer apenas uma parte do projeto para testar e enxergar, ver se aquela ideia funcionava. Para o projeto a equipe da Bravi foi montada a dedo, com todo cuidado. Trouxe designers de fora do Brasil e contratou desenvolvedores de confiança para entregar com excelência. Investiu na formação do time, dinheiro e tempo, e teve um ótimo retorno.

2. Relacionamento e contatos: Essas relações não aparecem da noite para o dia e dificilmente se desenvolvem a distância.

3. Timing: O momento da universidade também foi decisivo. Em Cambridge existe um departamento de inovação, constantemente buscando novas tecnologias que permitam aprender de forma diferente, melhor, mais rápida, mais adaptada. E recentemente fizeram várias incursões nesse universo de micro-learning e gamification, por isso também o interesse era grande. E a mecânica da gamificação tem se provado cada vez mais importante. Mais do que os gráficos e enfeites, é a ideia de recompensa, esforço, evolução, competição, que aumentam o interesse dos usuários no aprendizado. A pessoa pensa em usar o seu tempo de forma mais útil, aprendendo inglês.

O segundo produto é o Prisma, solução de BI e analytics dentro das universidades para entender engajamento e agir. O mercado de analytics no Brasil já fatura mais de R$ 1,6 bilhões e está em expansão. A Bravi por meio do Prisma desenvolveu inicialmente uma tecnologia conectada diretamente nos sistemas da universidade. Captando dados de diversas fontes, processando e gerando insights sobre risco de evasão. Quando em risco o sistema dispara uma série de ações para fazer com que aquele aluno modifique seu comportamento e saía de uma situação de risco. Essa solução apesar de ter trazido já bons resultados para clientes como o grupo Anima ainda não tem fácil adoção no Brasil. Isso porque a qualidade e a consistência dos dados é pequena, é difícil e caro conseguir implantar tecnologias de big data analytics em instituições de ensino. Em resumo é uma ferramenta de learning analytics, trabalha na mineração de dados educacionais para identificar perfil de comportamento de aluno para ajudar e trazer inteligência aos processos de captação, retenção e fidelização.

Conclusão

O desafio sempre é mostrar retorno, em qualquer produto. O cliente sempre pergunta: como vocês conseguiram provar o retorno nesse projeto? E a tentativa tem sido cada vez mais fechar o loop de investimento e retorno. Outro grande desafio no Brasil é o mindset imediatista no mercado e nas instituições de ensino. Em outros países, lá fora, se fazem projetos para melhorar 5% a taxa de retenção em 10 anos. Enquanto isso o brasileiro quer 20% em seis meses caso contrário não fecha negócio, e ainda em alguns casos precisa de garantia no contrato.

 

 

Compartilhado de: EdTechView

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *